Seguro: salva a moto, mas seca o bolso

Até que ponto o preço dos seguros e o medo de ser vítima da violência está interferindo na decisão de compra dos motociclistas?

Seguro: salva a moto, mas seca o bolso






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               As redes sociais tornaram-se uma valiosa ferramenta de expressão de nossas individualidades. Ali os bastidores empoeirados de nossas vidas ficam ocultos sob o glamour de nossas conquistas. Expomos somente nossos momentos gloriosos e ocultamos nossas fragilidades. O problema é que muitas vezes as pessoas desejam ostentar sem poder fazê-lo e quando isso torna-se um fator determinante de aceitação social, abre-se a porta para a realização de atos ilícitos para o alcance deste objetivo.

               Até algum tempo atrás, os roubos eram motivados somente pelo objetivo de se encaminhar o bem subtraído a um receptador, que o desmontaria e revenderia suas peças no mercado negro. Hoje, dada a sensação de impunidade e a falta da presença dos agentes da lei, principalmente nas periferias das grandes cidades, tal sensação parece ter se arrefecido bastante no imaginário da bandidagem, tanto que muitos roubos acontecem simplesmente para os bandidos “pagarem de boy com as nave”.

Famozinhos

                Atualmente no Facebook é possível encontrar páginas onde, abertamente, os bandidos expõem os frutos de suas ações e uma das mais escancaradas é a intitulada “Os Meno Problemático”. Contando com 12.515 curtidas e compartilhada por mais de 12 mil pessoas, é uma verdadeira vitrine da bandidagem. Para começar, sua foto de perfil mostra dois ladrões em ação, com a arma apontada para a cabeça de um motociclista que registrava o seu passeio com a câmera do capacete.

Ali postam os troféus de suas ações violentas em fotos e vídeos. Motos cujo preço no mercado começa na faixa de R$ 30 mil expostas em becos e vielas, tendo sempre em cima de cada “foguete” o autor da façanha mandando um “salve” pra rapaziada, com o rosto encoberto por um ícone ou meme. Desdenham da polícia, ridicularizam o proprietário quando este é flagrado em vídeo sofrendo um assalto, como se, através de tais demonstrações, expressassem uma espécie de revolta contra o chamado “sistema” que os exclui da possibilidade de ter acesso ao nível de consumo que desejam. “Tenho acompanhado depoimentos de amigos meus que perderam suas motos e é sempre a mesma história: bandido leva para ostentar em baile funk. Antigamente eles não sabiam que motos eram essas. Hoje, com a internet, sabem o que são, quanto valem, o que fazem, estão mais atualizados.”, analisa Ricardo Ávila, dono de uma BMW R 1200GS Adventure 2016, que chegou a pagar R$ 7.000 de seguro quando morava na Zona Norte de São Paulo para proteger o seu bem. Hoje, morando no Morumbi, o valor caiu um pouco, mas ainda não pode ser considerado barato. “Pago R$ 4.500, um valor exorbitante para uma moto, mas infelizmente precisamos ter esse seguro, já que o índice de roubo está muito alto em São Paulo.”, destaca.

Adelino Maciel é empresário. Já teve quatro motos roubadas. “O ser humano faz muita besteira para ser aceito. Fuma, bebe, toma drogas, só para ser aceito no grupo. Faz tatuagem, rouba moto ‘de patrão’, mata policial, tudo para ser aceito e respeitado na quadrilha da região onde mora.” Dele foram levadas  uma Honda XLX 350, uma Yamaha XT 600 e duas BMW F 800GS. “Incrível que criem perfis nas redes sociais onde esses feitos são admitidos e ilustrados com as fotos dos marginais, montados em motos top no meio das vielas.”, complementa.

Falta de dados

O Departamento de Inteligência da Polícia Civil de São Paulo mostra que em 2014 foram registradas nas delegacias de polícia do estado 41.209 casos de roubo e furto de motocicletas. Isso dá a média de 113 ocorrências por dia. Cerca de 45% deste total (18.460 casos) foram roubos, quando há emprego de violência ou grave ameaça para render a vítima. Questionada sobre dados mais recentes, a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública paulista afirmou não possuir dados separados que apontem o número específico de furtos e roubos de motocicletas.

De acordo com o site “Moto Roubada (www.motoroubada.com.br), os números de roubos de motos acompanham mais ou menos a proporção das faixas de cilindrada no mercado. 65,91% das motos roubadas custam até R$ 5.000 e 23,95% estão na faixa de R$ 5.001 a R$ 10.000, o que totaliza 89,86%. Somente 4,12% situam-se entre R$ 20 e R$ 50 mil. Acima deste valor, o índice é de apenas 0,09%.

Apesar disso, a percepção que há na sociedade é que nos últimos anos, tem ocorrido um aumento no número de roubos de motos de alta cilindrada, haja vista o aumento no valor dos prêmios (o valor que se paga quando se segura um bem) que as seguradoras têm cobrado. Este era um fenômeno que já se observava entre as nakeds e esportivas, mas que passou a afetar as big trails recentemente. “Hoje o bandido quer uma moto que não seja só rápida, mas que possa subir calçadas, ultrapassar obstáculos, algo que uma speed ou naked não conseguem.”, reflete o empresário Ricardo Ávila.

Pensando em seguro, a primeira coisa que vem à cabeça é o alto custo das apólices. “Mas quando vemos o preço de uma lateral de uma BMW ou mesmo o custo de transporte de uma moto de uma cidade distante até sua casa, a coisa começa a mudar. Eu acho que o seguro é importante para te oferecer proteção de um bem de valor, mas hoje, mesmo com as motos perdendo seu valor com a depreciação do passar dos anos, o valor dos prêmios continua subindo sem parar”, constata José Henrique Queiróz, dono de uma BMW R 1200GS 2015. “Como pode isso? Em 2016 paguei R$ 3.600 via BB Seguros e o valor da moto era R$ 59.000. Agora em 2017, o valor da moto caiu para R$ 56.000 e o seguro subiu para R$ 3.950, na Porto Seguro”, exemplifica.

O representante comercial André Golstorff possuía uma BMW F 800GS até julho de 2014, quando, voltando de uma viagem, na rua de sua casa, foi abordado por dois bandidos em uma CG. Nem mesmo a presença de vizinhos que presenciaram o assalto foi suficiente para inibir a ação dos bandidos. No dia seguinte a moto foi localizada, tão detonada que acabou sofrendo perda total pela seguradora. Com o dinheiro recebido, André, que é apaixonado pelo off-road, desistiu de continuar com a big trail. Ele comprou um carro e só voltou a ter uma moto em fevereiro deste ano, escolhendo uma que chamasse menos a atenção dos bandidos. “Cheguei a pensar em montar uma moto a partir de peças de outras motos mais antigas, de modo a ter uma motocicleta totalmente Frankenstein, que não chamasse a atenção, Mas essa moto não apareceu e como gosto de big trail, preferi adiar a compra. Agora em 2017, comprei uma Yamaha Ténéré 250. A moto está bem feia, ralada. Peguei num preço bom e agora coloquei na Suhai, que cobre furto e roubo. Acho que por não estar chamativa, encontrei uma solução para voltar a pilotar com mais tranquilidade”. Ele ainda recorda-se que o valor do seguro de sua F 800GS subira muito naquela época. “No primeiro ano que segurei (minha moto) paguei em torno de R$ 1.800 e o último já paguei R$ 2.800. Quando estava pesquisando para comprar outra moto, já estava em R$ 4.700, em agosto de 2014”.

Renan Bernardes é outro que está abandonado as big trails a contra gosto. Fazendo trilhas desde os 17 anos de idade, hoje, aos 48, tem, além de uma Yamaha WR 450F, uma BMW F 800GS 2015 da qual pretende se desfazer. “Ano passado fui renovar o seguro da moto e saltou de R$ 2.500 para R$ 4.800. Não fiz e, com medo de sair e ser assaltado, faz oito meses que não tiro a moto da garagem. Vou vendê-la, com dor no coração, mas vou vendê-la”, lamenta-se.

A composição do preço da moto mais o preço do seguro começa a ficar proibitiva. “Tem big trail zero que custa R$ 80 mil e isso, aliado às despesas de IPVA, licenciamento e seguro cada vez mais alto, tem levado um bom número de pessoas a desistir de possuir uma moto grande. Triste realidade”, lamenta o empresário Sergio Batista, aquele que perdeu quatro motos para os criminosos.

Felizmente a realidade de São Paulo não pode ser comparada com a de cidades menores espalhadas pelo Brasil. Dono de uma empresa localizada no distrito industrial de São José do Rio Preto/SP, André Carrazone Neto afirma que a preocupação na hora de fazer o seguro de suas motos é mais focada nos serviços que este oferece do que na preocupação em proteger o seu patrimônio dos bandidos. “Faço uma cotação antes de comprar minhas motos para ver se o valor do seguro não foge muito. Procuro saber qual seguro vou comprar. Como viajo bastante para fora do país com minha moto, procuro saber se esse seguro já emite Carta Verde, se ele tem burocracias ou não para fazer extensões de perímetro. Já perdi a conta de quantas vezes deixei a chave da moto no contato, do lado de fora da fábrica. Nunca tive problema. O seguro no meu caso é mais para um acidente, se precisar de um reboque, coisas assim”.

Além do dinheiro

               Além da questão financeira, que vai tornando cada vez mais caro possuir uma moto de alta cilindrada em grandes centros, o risco de expor-se a uma ação violenta é um outro agravante que tem interferido na decisão de compra de muitos motociclistas. Esta é a análise do instrutor de pilotagem e jornalista especializado em motos, Nenad Djordjevic. “O preço do prêmio tem um impacto, mas não acredito que seja o principal. Na decisão vem primeiro a segurança pessoal e depois a financeira. Hoje o impacto maior (na decisão de comprar ou não uma moto grande) está no risco que este bem implica de a pessoa sofrer uma violência.”

               Em recente estudo divulgado pela Abraciclo (entidade que reúne os fabricantes de motos e bicicletas no Brasil), entre março de 2016 e março deste ano, o mercado de motos entre 450 e 800 cm3 caiu 19,9%, enquanto que acima disso, a queda foi de 10,7% - e as razões para isso situam-se além do quadro econômico recessivo. “Enxergamos que o aumento no valor das apólices tem sido um entrave para a compra destas motos, mas a violência também acaba interferindo na decisão do usuário, que em alguns casos pode não estar optando pela compra do bem para não expor-se ao risco”, explicou Marcos Fermanian, presidente da entidade, durante o mais recente encontro com a imprensa, realizado em meados de abril.

Desmanche virtual

               Listados como os vilões do setor, os desmanches sempre foram apontados como os grandes responsáveis pelo elevado número no roubo de motos. Em São Paulo, a região que os concentra, no Centro da capital paulista, tornou-se nacionalmente famosa pelo apelido de “As Bocas”, dada a quantidade de estabelecimentos de aparência suja, em cujas frentes estão sempre pessoas de expressões pouco simpáticas interrogando quem ali passa, se procuram por peças.

               Por este ser um fenômeno que também afeta o mercado de automóveis, o governo federal publicou em 20 de maio de 2014 a Lei número 12.977, que visava disciplinar o mercado de peças recuperadas no país. Entre as determinações expressas no documento estava a obrigatoriedade de as empresas terem autorização do Detran de cada estado para funcionar, além de serem obrigadas a emitir nota fiscal de entrada do veículo em suas dependências (artigo 6o), comunicação ao órgão de trânsito do estado em até três dias da desmontagem do veículo, mecanismo de instituição de rastreabilidade das peças (Artigo 10o, parágrafo IV), entre outras determinações.

               Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo fez um balanço das atividades baseadas nesta lei. “A Operação Desmanche, fiscalizou 518 estabelecimentos irregulares e fechou 47 deles em 2016. Este ano, já foram 95 desmanches vistoriados e três deles foram fechados. A iniciativa ataca a cadeia econômica em torno desses crimes, ao incrementar as exigências para a comercialização de peças usadas”, detalha a nota, que ainda apresenta mais dados. “A Operação Terremoto resultou no cumprimento de 31 mandados de busca e apreensão, tendo sete estabelecimentos, entre lojas, estacionamentos e depósitos lacrados. A investigação conseguiu identificar o trajeto do crime, desde a abordagem dos suspeitos até o distribuidor final. O trabalho policial resultou em 19 pessoas presas em flagrante e dois menores apreendidos. 

               Mas como sempre ocorre quando a polícia aperta um cerco, os bandidos logo tratam de buscar uma saída para manter suas atividades, e o aparente anonimato que a internet oferece, com seus sites de compra e venda, parece estar se transformando no cenário perfeito para continuarem a atuar – e com o conluio dos consumidores. “Moto BMW era tida como ‘não visada’ porque era consenso que ‘quem tem BMW não compra peça em desmanche’. Isso é verdade até certo ponto. Não compra em desmanche mas compra na internet. Nesse ambiente virtual quem anuncia declara ser ‘moto de leilão’ e, convenientemente, o comprador finge acreditar e, como quem entrega são os Correios, fica aquele ar de legalidade. Cascata: a peça custa 100, é ofertada na rede por 20 e o cara acredita que é uma operação legal? Tenha dó!”, inconforma-se Sergio Batista. “No Mercado Livre ainda há um certo controle por parte do site sobre compradores e vendedores, mas na OLX é uma ‘terra de ninguém’ e lá, o comércio de peças usadas corre solto”, informa Renan Bernardes.

               Durante a elaboração desta reportagem, fizemos um levantamento tendo como base a frente completa de uma Honda CB 600F Hornet. No Mercado Livre, encontramos um anúncio onde o conjunto era oferecido por R$ 1.600. Consultamos a concessionária Remaza Centro-SP para saber por quanto esta sairia: R$ 9.362, uma diferença de mais de 485%! “É preciso ter polícia e política para fechar esses desmanches e que as marcas, através de suas concessionárias, reduzam os preços de peças e revisões, pois é um absurdo o valor de uma peça de moto importada, independentemente da marca”, argumenta Ricardo Ávila.

               Apesar do aumento do valor dos prêmios do seguro e do risco de ser assaltado, a paixão e o prazer que uma moto de alta cilindrada e seu estilo proporcionam ainda são fortes o bastante para superar as adversidades. “No meu coração, não quero abandonar as big trails nunca, mas o problema é a razão, mas vou continuar insistindo nas big trails. Graças a Deus nunca tive problema de roubo, mas andar dentro de São Paulo eu não ando”, assegura Ávila.

               O empresário Adelino Maciel sofreu um assalto e mudou sua rotina. “A partir daquele episódio comecei a pesquisar algumas possibilidades de motos para comprar. Andei uns tempos de Triumph Bonneville, cheguei a pensar em outra big trail, quase comprei uma Triumph Tiger Sport 1050, mas são motos que os bandidos roubam. Então tomei duas decisões. Comprei uma R 1200RT, moto de excelente ciclística e que usa a mesma mecânica da R 1200GS e um scooter, para andar no dia a dia. Claro que aquele episódio me marcou. Eu sempre gostei de colocar a minha esposa na garupa e sair sozinho com ela, para onde quiséssemos, sem depender da vontade de ninguém. Mas hoje vamos pela manhã para algum concessionário onde tomamos café da manhã e, de lá seguimos em grupo para algum lugar.”

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