0s 40 anos de evolução da navegação brasileira

Fotos e fatos mostram como evoluíram os equipamentos essenciais para a disputa do Enduro de Regularidade.

0s 40 anos de evolução da navegação brasileira






O Enduro de Regularidade é um esporte essencialmente brasileiro. Ele surgiu de uma adaptação feita em Minas Gerais, no início dos anos 80. Os mineiros tomaram conhecimento de competições de rali na Europa que seguiam um roteiro escrito em mapas de papel. 

Daí surgiu a ideia de propor uma corrida que não fosse corrida, definindo trechos onde se deveria acelerar mais forte e trechos onde se deveria andar bem "devagarzinho". 

Logo perceberam que haveria uma dificuldade: "Como fazer para controlar as distâncias?" Isto porque cada moto tem seu odômetro (também se pode escrever hodômetro, com "h") e cada um tinha grandes margens de erro. Enquanto uma moto marcava ter percorrido 5 quilômetros, outra marcava 5,5 quilômetros, por exemplo, como distância entre dois pontos. 

Os pilotos, espertos que só eles, perceberam que era necessário ter algo que permitisse um ajuste fino nos precários odômetros manuais do passado. 

Destaque para a Yamaha DT 180, que foi lançada com um odômetro inovador. Ele tinha um botãozinho mágico, que permitia o ajuste da quilometragem. Além de solucionar esta questão, ele permitiu aos organizadores que fizessem o "zeramento" das distâncias. Foi bastante útil, pois como a maioria das provas tinha mais de 50km de extensão, o novo odômetro permitia que se utilizassem distâncias menores por trechos. 

As primeiras planilhas eram feitas em papel no formato A5, ou seja, metade de um formato A4. Elas eram afixadas em pranchetas, normalmente construídas com tábuas de cortar carne, daquelas feitas em material semelhante ao plástico. Claro que teve muita gente que usou pranchetas de madeira e até uns loucos que usavam de metal também.

Sempre inovando, os pilotos, que até então utilizavam um relógio no pulso, passaram a fixar o relógio na prancheta também. Sua necessidade era ajudar o piloto a "casar" as informações de distância e hora ideal de passagem em cada local. Por exemplo: a planilha indicava que o piloto deveria passar ao lado de uma árvore "x" com 1 hora, 12 minutos e 40 segundos. Assim, ao ter contato visual com a árvore, o piloto dava aruqle espremida no olho para ver a pequena tela do relógio e perceber se estava adiantado ou atraado em relação ao horário determinado pela organização. Se estivesse atrasado, colava a mão no acelerador para perder o mínimo de tempo possível. Mas se estivesse adiantado, começava o balé sobre a moto, pois se houvesse um ponto de medição junto à árvore, ele não poderia colocar os pés no chão. Se o fizesse, teria seu tempo anotado pelo posto de controle. E neste caso, chegar adiantado penaliza com 3 vezes mais pontos do que chegar atrasado.

E nunca mais as melhorias deixaram de ser introduzidas. Chegaram os cronômetros Casio, com visores maiores e marcadores mais precisos. A planilha continuava de papel. 

Finalmente chegou uma nova era, a das Ralimax e Ralicontrol. Eram nada menos do que calculadoras dotadas de um temporizador automático, que fazia as contas "automaticamente" para o piloto, mostrando em qual quilometragem ele deveria estar, a cada segundo de tempo decorrido. Só que elas eram simples calculadoras, e para que o sistema funcionasse, era necessário que o piloto digitasse a média horária daquele trecho em seu painel. Isto é, se o piloto estava em um trecho de média 30 km/h e o organizador marcasse na planilha que a média passou para 36 km/h, ele deveria digitar o número 36 e a tecla "igual". A partir de então ela ajustava e aquela corrida maluca seguia adiante. Não tenho dúvidas que era uma loucura mesmo.

Claro que as calcularodas eram muito frágeis e rapidamente se estragavam, seja com a chuva, seja com o barro, a poeira ou mesmo os tombos. Era o tipo de situação que tinha tudo para dar errado. Um dos mestres daqueles tempos era Romeu Valadão, que conseguia dominar como poucos a arte da navegação com instrumentos tão precários. 

Aliás, vale citar uma curiosidade: as calculadoras Ralimax e Ralicontrol somente funcionavam quando as médias horárias eram múltiplas de 3, isto é, 18, 21, 24, 27 km/h e assim por diante. Mesmo depois do desaparecimento desta tecnologia e surgimento de outras novas, a teoria das médias de 3 em 3 km permaneceu por longos anos.

**Curiosidade: A Ralimax foi inventada por Magnus e Francis, os dois proprietários da Framax, empresa que atua até hoje no mercado de motos. O saudoso Magnus já não está mais entre nós, e seu irmão Francis segue firme na luta. 

Foi então que algum piloto engenheiro descobriu que as calculadoras científicas HP poderiam ser programadas para fazer o mesmo que a Ralimax e a Ralicontrol faziam. A primeira que fez muito sucesso foi a HP 17C, por ser robusta e confiável. Mas era um item muito caro para ser utilizado no esporte, por isso apenas os "top´s" conseguiam investir tanto. Era comum vê-las entre os pilotos da "Graduados", categoria onde andavam os mais experientes. 

A HP lançou então o modelo 48G, que tinha um painel maior e permitia visualização de mais linhas. Foi um diferencial a mais e que permitiu a programação de várias médias ao longo da prova. Era possível usar um programa nativo da calculadora para colocar todos os trechos, exigindo que o piloto clicasse menos vezes na calculadora. Como ela custava mais caro, normalmente o usuário passava um filme plástico sobre ela, para evitar que a chuva danificasse o equipamento. Mas a trepidação da moto muitas vezes a fazia reiniciar, o que gerava grandes transtornos durante as corridas. 

Vale lembrar que paralelamente à evolução das calculadoras, as motos também ficavam mais rápidas e ágeis a cada ano. O Enduro de Regularidade foi ficando mais rápido, e exigia equipamentos mais sofisticados. 

Foi então que apareceram duas empresas icônicas no regularidade: Compass e Totem. Ambas de São Paulo, chegaram com tecnologia e equipamentos feitos especificamente para uso no regularidade. A evolução começou a ser anual, pois o mercado de regularidade já era grande e as duas empresas contavam com equipes super competentes. 

Ricardo (Compass) e Alexandre (Totem) disputaram durante anos, a ponta da tecnologia. Em temos de compatições, os primeiros anos foram fantástico para a Compass, que venceu todas as primeiras 20 edições do Enduro da Independência e os Campeonatos Brasileiros também por duas décadas. Mas a Totem teve maior sucesso comercial, especialmente quando lançou o modelo COLOSSO, que chegou repleto de programações inovadoras, em especial a possibilidade de receber a programação dos trechos de uma fonte externa. 

Neste momento surgiu um terceiro fabricante, a Cormed, que chegou com seu modelo Winner. Este modelo tinha menor capacidade tecnológica mas chegou com menor preço, o que ajudou a conquistar grande mercado. A Cormed também comercializava Road Books, sendo a primeira empresa a atender por completo as necessidades dos usuários. 

**Esta matéria está focada nos navegadores, e em breve faremos uma matéria focada nos road books, que possuem uma história à parte no Brasil. 

Por ser o regularidade um mercado pequeno, se comparado a outras possibilidades na sociedade, a Compass passou a se dedicar a outros mercados e deixou de lado o motociclismo. Enquanto isso a Totem continuou investindo forte. Surgiu então uma parceria que fez história, entre os Road Book Corona e a Totem. Durante vários anos as duas empresas lançaram produtos se encaixavam como uma luva. Aliás, movimento natural para duas empresas que situavam-se bem perto, uma da outra, na grande São Paulo.

Recentemente chegou-se ao formato atual, que é o Road Book digital, via aplicativo. Os aparelhos celulares (podem ser utilizados também os tablets) agora contam com um aplicativo criado pela Totem, que permite reunir as funções de Road Book e de navegador em um único sistema. O navegador moderno passa automaticamente as referências, à medida que a moto se movimenta, utilizando a tecnologia "Blue Totem", desenvolvida pela empresa de Mogi das Cruzes. O próprio piloto pode gravar, com sua voz, observações a serem "faladas" pelo aparelho durante a corrida. É muito moderno e deixa poucas pistas sobre as futuras melhorias que o futuro reserva pela frente. Mas aí, já será tema para uma nova matéria, no futuro.